11 de julho de 2015 - Fonte: MedicalXpress, ANS - Fotógrafo: Divulgação

Talvez você se lembre da polêmica do parto natural x cesariana do início desse ano, quando a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) brasileira criou uma nova resolução a fim de diminuir o número desnecessário de procedimentos cirúrgicos no país.

Muitas pessoas sentiram que seu “direito à cesárea” estava sendo usurpado, o que, é claro, não faz o menor sentido. O objetivo do Ministério de Saúde é apenas garantir que as mulheres façam decisões informadas quanto se trata do nascimento saudável de seus filhos.

A resolução

A decisão não proíbe a cesárea, mas exige o preenchimento do partograma, um documento que detalha as etapas do trabalho do parto e explica o motivo pelo qual o médico precisou optar pela cirurgia, em vez do parto normal.

A regra é válida para todos os médicos da rede privada e o plano de saúde só terá obrigação de pagar os procedimentos realizados se o partograma for apresentado com as informações corretas.

A intenção desta resolução é reduzir drasticamente o número de cesáreas dispensáveis, que foram marcadas por pura conveniência em vez de uma necessidade real.

Para quem acha que tal “obrigação” é um exagero, vale lembrar que o Brasil é líder em cesarianas, enquanto o parto normal é muitas vezes mais saudável para ambas mamãe e criança.

Números absurdos

O ministro da Saúde Arthur Chioro disse que a “epidemia de cesarianas” é atualmente responsável por mais de metade dos nascimentos no país. Cerca de 84% das mães brasileiras sobre cuidados de saúde privados se submetem a operação, e 40% fazem o mesmo em hospitais públicos.

Isso é mais que a taxa de 32% de cesáreas nos Estados Unidos, e muito superior à taxa recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 10 a 15%.

As novas regras decretam que médicos e hospitais compartilhem certas informações com suas pacientes, sob pena de multa se não o fizerem, com o objetivo de tornar as mulheres mais cientes dos prós e contras.

“O parto é um dos momentos mais importantes na vida de uma mulher e sua família”, disse José Carlos de Souza Abrahão, diretor da ANS. “Ao informar a mãe dos riscos que poderiam vir com um procedimento cirúrgico desnecessário, ela vai ter mais certeza em sua decisão, vai escolher o que é melhor para sua saúde e para a saúde do seu bebê”.


Mudar uma cultura

A ignorância e o desejo de conveniência são os principais motivos para as cesáreas em massa brasileiras, opina Luciana Herrero, autora de “Diário de Bordo do Parto”.

Mesmo quando os valores do parto normal e da cesariana não variam muito, a opção cirúrgica ainda é mais rentável para os hospitais porque pode ser programada, tem pouca imprevisibilidade e leva menos tempo que as longas horas do trabalho de parto natural.

Para os médicos, também é muito mais fácil a escolha da cesariana. As vantagens de agendar uma operação são muitas para os profissionais, que podem ficar tranquilos quanto a sua programação, com a certeza de que o parto não irá atrapalhar seu sono ou uma viagem, por exemplo.

Rosana Clein, gerente de marketing de 37 anos do Rio de Janeiro, queria ter seu filho naturalmente, mas, no último minuto, devido à dor, optou pela cesariana. Bem antes, no entanto, ela já se sentia pressionada por essa escolha. “Eu tentei encontrar um médico para fazer um parto natural, mas no Brasil não é tão fácil. Eles tentam convencê-la que a melhor maneira é fazer uma cesariana. Eles dizem que você vai ter muita dor da forma natural”, conta.

Parto normal é o normal

Cesáreas podem ser convenientes, mas também são perigosas para a mãe e podem ter graves consequências de saúde para o bebê, que vão desde um aumento do risco de obesidade a doenças crônicas.

A ANS afirma que, quando a cesariana não tem indicação médica, aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. Cerca de 25% dos óbitos neonatais e 16% dos óbitos infantis no Brasil estão relacionados a prematuridade.

Sabe-se que a partir de 38 semanas o feto é considerado pronto para nascer, mas quanto mais tempo passar dentro do útero, dentro do prazo considerado normal em boas condições de saúde, melhor será seu desenvolvimento e amadurecimento dos pulmões.

Segundo Herrero, sete em cada dez mulheres brasileiras começam a sua gravidez com a intenção de ter um parto normal, mas apenas metade o faz. “Eu me pergunto quantas dessas mulheres mudaram de ideia durante a gravidez, quantas tinham uma razão médica real que justificasse a cirurgia, e quantas foram persuadidas desnecessariamente a ter a cesariana”, argumenta.

Chioro ecoa suas palavras. “Não podemos aceitar que as cesarianas sejam realizadas em função do poder econômico ou por comodidade. O normal é o parto normal. Não há justificativa de nenhuma ordem, financeira, técnica, científica, que possa continuar dando validade a essa taxa alta de cesáreas na saúde suplementar. Temos que reverter essa situação que se instalou no país”, proclamou o ministro.

MedicalXpress, ANS